Mostrar mensagens com a etiqueta Conto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conto. Mostrar todas as mensagens

Nefastos

Acordei. Os meus olhos sentiram dificuldade em habituar-se à luminosidade. Via tudo desfocado mas apercebi-me que não estava no mesmo lugar. Agora encontrava-me numa cadeira, num cubículo de pequenas dimensões com um foco de luz directamente à minha frente. Lentamente, comecei a aperceber-me de onde estava quando os meus olhos habituaram-se à luz e consegui ver uma silhueta a dançar à minha frente. Não quis acreditar e levei as mãos à testa, não tinha a lógica nenhuma eu ter deixado Guelika para vir aqui, muito menos a hipótese de ela ter-me posto aqui por diversão. Conforme a minha visão se habituou, consegui ver as formas da musa que se movia à minha frente que balançavam lenta e gentilmente ao som de uma música que parecia estar gravada na minha cabeça. Ainda não acreditava que estava ali outra vez, mas já que tinha pago, ou alguém tinha pago por mim, aproveitei o espectáculo até ao fim.

A música acabou e a sua dança cessou, ela ajoelhou-se à minha frente, soprou-me um beijo e ficou a olhar-me nos olhos com um sorriso na cara. Eu também não desviei o olhar conforme a porta se fechava diante nós e aquelas duas esferas azuis como o mar desapareciam perante elas. A porta fechou e eu enfiei a cabeça entre as pernas, suprimindo um grito. Sai do cubículo e tentei entender onde estava. O cheiro forte a tabaco e as paredes pintadas a castanho com posters das “artistas” colados com fita-cola era uma visão conhecida. Estava no “Abraço das Serpentes”, o bar de strip/peepshow mais reles cá do sítio. Eu já tinha frequentado este sítio mais vezes do que era saudável, mas já tinha passado muito tempo desde que eu vinha aqui, mesmo muito e ainda não conseguia entender porque raio estava eu aqui outra vez.

Foi então que reparei num par de olhos grandes e amarelos no canto da sala a olhar para mim. Uma criatura olhava para mim com um esgar de satisfação. Não sabia quem ele era, mas parecia conhecer-me a mim. Avançou até mim. Fato branco e calças a condizer, com uma gravata azul. Pele verde e escamosa, dois lábios quase inexistentes e uma careca que parecia ter sido polida e brilhava nas luzes do estabelecimento. Ele sorriu para mim com uma fileira perfeita de dentes brancos e estendeu uma das suas mãos reptilianas em cumprimento.

- Daniel Leudovico, ao seu dispor. – Apresentou-se quando lhe apertei a mão. – E você não precisa de dizer quem é, já ouvi dizer muito boas coisas a seu respeito.

- Muito prazer. Mas lamento se não o conheço. – Respondi com a mente ainda mais confusa.

- Ora bem, eu sou o proprietário deste estabelecimento. Quer dizer, o novo proprietário.

- Novo?

- Não soube? O Marco faleceu a semana passada. Eu era o sócio dele e assumi o seu cargo e tenho de admitir que até é um buraco acolhedor. – Informou-me mantendo sempre o sorriso que fazia parecer que queria vender algo.

- E tem o hábito de cumprimentar pessoalmente todos os seus clientes? – Respondi, sentindo-me mais ciente de mim.

- Por amor de Deus não! – Clamou benzendo-se. Ri-me dele ao ver fazer aquele gesto, era adorável ver o dono de um lugar destes como um devoto. - Não Já viu a maioria das pestes que frequentam este local? A maioria deles, nem sei onde andam com as mãos, já para não falar dos ninhos de doenças que são. Não, eu guardo a minha presença para criaturas mais ilustres, como você.

- Como eu? – Disputei com estampando o meu sarcasmo na cara. – Desculpe-me se eu não devoro inocentemente todos os retalhos de prezes que me lança. Eu não gosto de confiar em qualquer estranho que me oferece a sua mão.

- É justo. – Respondeu o lagarto com uma expressão solene. – Mas fique a saber que tenho conhecimento que fez alguns favores ao Marco. Talvez eu necessite de alguma ajuda no futuro.

- Pois, já imaginava que fosse algo assim. O que é curioso estar-me a pedir, quando eu não me recordo sequer como vim para aqui. – Disse, tentando sondar a reacção dele, que, para meu desapontamento foi uma de confusão e surpresa.

- Veio para aqui com os seus próprios pés. Eu próprio a vi a entrar.

- Está bem. – Esfreguei a cara e suspirei. – Tem sido uma noite interessante.

- Pois bem, permita-me que a torne ainda mais interessante. A Nadja pediu-me a sua companhia.

- Ela ainda trabalha cá?

- Sim e quando descobriu que estava cá quis imediatamente ser escolhida para seu prazer.

- Reparei nisso. – Lembrando-me da pequena dança que tinha desfrutado assim que acordei.

Vi-a a olhar-me pelo canto do corredor que levava até aos camarins das “artistas”. Atentos aos meus movimentos, os seus dois grandes olhos azuis observaram-me a aproximar-me dela.

Quando estava perto, ela agarrou-me pela mão e levou-me rapidamente para a sala onde as senhoras se preparavam para os seus espectáculos. Lá dentro elas vestiam-se em roupas reduzidas e, ou fantasiosas, arranjavam a maquilhagem e gritavam umas com as outras, trocando insultos e mexericos. A Nadja levou-me pelo meio daquele mar de mulheres que me olhavam de relance e rapidamente perdiam o interesse. No meio daquela pressa algo correu mal. A minha mente turvou e uma sensação de tontura, de deslocação deturpada apossou-se de mim. Pareceu que caminhamos durante horas e então deparei-me em frente a Nadja, no meio da rua, numa noite chuvosa.

- Obrigada por me trazeres a casa. – Disse ela debaixo da chuva com o seu olhar penetrante e doce cravado no meu.

Olhei para a esquerda e vi um prédio opressivo, de cor escura como a noite e várias luzes amarelas fugindo de algumas das janelas. A chuva continuava a cair.

- Como é que…? – Comecei mas interrompendo-me a meio da questão e rendendo-me à loucura. – Não tens de quê.

- Sabes? Eu gosto de ti, não és como todos os outros pervertidos… - Disse comovida. Apesar da chuva, consegui entender que chorava. – Tu vens e aprecias o espectáculo, a arte, aprecias-nos e aprecias-me. Não como todos os outros tarados que vêm-nos apenas como pedaços de carne, como auxílios à sua masturbação arfando como cães nojentos.

- Mas se tu não gostas desta vida, porque não mudas? – Perguntei eu com uma inocência que até me meteu nojo poucos segundos depois de a ter dito.

- E o que faria eu para além disto? – Perguntou ela com o seu sorriso doce mas este também possuía um travo amargo. – Não sei fazer mais nada. A minha vida é isto. Agradeço-te pela companhia mas…

- Tens que sair da chuva para não te constipares. – Interrompi sorrindo-lhe.

Ela abraçou-me e despediu-se entrando no apartamento. Pouco tempo depois de desaparecer por entre a bocarra daquele monstro de pedra e cimento, as luzes do seu interior apagaram-se. Um trovão rugiu por cima da minha cabeça e de repente começou a chover outra vez. Mas havia algo estranho nesta chuva, era mais pesada, mais forte. Foi então que levantei as minhas mãos à altura da minha face e vi nelas as gotas a baterem e eram negras como petróleo. Aquela chuva de escuridão foi rapidamente invadindo as ruas e cobrindo os edifícios e repentinamente tudo foi varrido. Tudo foi limpo pela escuridão que invadiu o mundo.

Abri os olhos com o coração a querer escapar-me pela garganta. Ouvi o ressonar característico de Guelika ao meu lado e o meu coração amansou. No entanto a imagem da Nadja não me saia da cabeça. Temi que algo se passasse com ela, não sou de acreditar em sonhos proféticos ou nada disso, mas talvez o facto de não ver a rapariga há algum tempo estava a deixar-me com preocupações que não devia.

Suspirei e tentei voltar a adormecer, mesmo com a irrequieta preocupação de que algo podia estar a passar-se de errado com a Nadja. Foi então que ouvi a chuva lá fora, a bater nas janelas, no tecto, nas paredes. Um arrepio percorreu-me a espinha e uma sensação de angústia apossou-se de mim.

Guelika moveu-se um pouco no seu sono e estreitou o seu abraço como se tivesse apercebido da minha aflição. Suspirei outra vez sob o abraço desta filha de Hékate, independentemente dos possíveis feitiços que ela tinha metido em cima de mim, parecia que me acalmava como queria.

O que estou eu a pensar? Parece só que estou a encher a minha mente de palha…

Colector de Corações - Parte 9

O terceiro dia chegou sem a tormenta do anterior. Os céus estavam azuis, com poucas nuvens e a terra ainda húmida das chuvas apresentava um castanho vivo, com o cheiro da terra a inundar o ar. Enquanto os agricultores aproveitavam a suavidade da terra e os porcos se divertiam a rebolar na lama que restava, Midsat já se encontrava no caminho para o palácio da Condessa. O pequeno caminho pelo bosque circundante pareceu-lhe curto quando ele viu a guarnição de Tarne.
Confirmou que trazia os três sacos com as diferentes ervas. Sacos esses que no dia anterior tinha comprado quando acompanhava Rasi e Delfi nas compras para o Dragão Vermelho. Rasi era a primeira das filhas de Slosa que Midast tinha conhecido naquela manhã em que também tinha tido o seu confronto com a Princesa ladra, mas que até aquele momento não sabia o seu nome. Longe do seu local de trabalho Rasi mostrava-se ainda mais sociável, puxando por Midsat para partilhar da sua vida, fazendo piadas e oferecendo as suas risadas caricatas e joviais. Já Delfi tinha se mantido mais silenciosa. Era a segunda mais nova da estalagem mas tinha uma maturidade bem acima da sua idade. Comportava-se como uma pequena senhora, sorrindo graciosamente das piadas da irmã, conversando pausadamente e cumprimentando cordialmente todos os que conhecia ou quem negociava. Não era uma rapariga tão bela quanto as suas irmãs. Era quase tão alta quanto Rasi, tinha a cara arredondada e cabelo negro quase indomável que apesar de liso negava a manter-se homogéneo, os seus pequenos olhos tinham uma tonalidade castanha que às vezes se confundia com vermelho e a sua pele tinha um tom torrado, evidenciando que tinha as suas raízes no sul.

Cada uma das irmãs tinha uma cesta onde iam colocando as suas compras. Quando já se encontravam carregadas decidiram ir procurar pelas ervas que Midsat necessitava. E como Lainos tinha previsto, duas das ervas encontraram-se com bastante facilidade, já a terceira foi impossível de achar nas lojas convencionais. Por isso precisaram de percorrer caminhos mais negros nos mercados da cidade. A sua busca levou-os uma velha que vários habitantes de Lazindur chamavam de bruxa, pois todos aqueles que admitiam algum conhecimento da suposta erva diziam que apenas conheciam uma pessoa que poderia possuir tal artigo e essa pessoa tinha reputação de praticar bruxaria assim como possuir conhecimento das magias mais negras existentes.
Chegaram a uma casa na parte pobre da cidade. Como todas as outras neste local, era feita de madeira, mas esta estava um pouco mais envelhecida. Das janelas vinha um brilho amarelo de que algo dentro da casa ardia, mas para além disso mais nada conseguiam perscrutar no negrume da habitação.
Rasi quase que tremia e Delfi engoliu a seco quando Midsat deu o primeiro passo. Todos contavam histórias das coisas que se passavam naquela casa e todas essas histórias falavam de rituais negros e sombras mal-formadas projectadas do interior da casa, mas isso não demoveu Midsat, deslocou-se até entrada e com a mão pesada bateu à porta.
A porta abriu-se com um demorado ranger e do outro lado uma cara juvenil, de um tom tão branco que não parecia natural. Era uma rapariga mais baixa que Midsat, de pele incrivelmente alva e traços infantis, tinha um cabelo ruivo, um pouco oleoso, preso num carrapito, apenas com duas madeixas caindo sob as maçãs do rosto. Ela observou Midsat de cima a baixo com os seus olhos negros escondidos por trás de uma expressão sonolenta e então anunciou com uma voz serena.

- A mãe estava à vossa espera. Por favor entrem.

A rapariga fez sinal para eles entrarem e Midsat não se fez de rogado. No entanto as duas irmãs mantiveram-se estáticas no mesmo lugar, com demasiado temor para se mexerem. Algo que a pequena rapariga ao reparou e não tardou a dirigir-se a elas com um pequeno sorriso.

- A mãe está à espera dos três. Não só do homem.

E com isso dito a menina voltou para dentro do negrume da casa. As irmãs entreolharam-se e com uma passada incerta também elas entraram no covil da bruxa.
Apesar de varias velas acesas, das janelas abertas e de uma lareira a crepitar, O interior da casa era incrivelmente escuro, como se a luz tivesse dificuldade em penetrar dentro da residência. Havia tachos e panelas em tudo quanto era canto, vários sacos e livros poeirentos arrumados em estantes e no centro estava uma mesa. Mesa essa que quatro cadeiras, onde numa delas uma mulher se sentava. A sua cara mostrava a passagem de varias estações, tinha o cabelo grisalho amarrado como a rapariga que os tinha cumprimentado e com os seus olhos quase cinzentos olhava-os com um sorriso desdentado. Midsat manteve-se imóvel enquanto Delfi tentava manter a mesma postura, tentando não mostrar o seu nervosismo, Rasi no entanto começou a murmurar uma reza a Arana por protecção. A mulher apercebendo-se do que Rasi fazia soltou um riso macabro e começou a falar.

- Não te preocupes em pedir por protecção criança. Não estás em nenhum perigo.

Rasi ficou muda após essa observação. Não esperava alguém que aparentasse aquela idade ter boa audição, quanto mais ouvir algo que pouco som tinha.

- Ouvi dizer que a senhora tem vários tipos de ervas para venda. – Disse Midsat convicto, demonstrando nenhuma perturbação.
- Ouviste bem meu rapaz. – Concordou a mulher virando a cabeça lentamente para Midsat, parecendo investiga-lo lentamente com o olhar. – Eu trabalho com muitos ingredientes mágicos e alquímicos. E em resposta à tua próxima pergunta sim, tenho o que tu queres.

Houve um pequeno silêncio na sala que deu oportunidade para as respirações fazerem-se ouvir.

- Então se sabe, a quanto fica um punhado? – Perguntou Midsat com uma voz marcante.
- Poderei dar-te, sem qualquer custo. Mas primeiro terás de fazer algo por mim.
- Midsat. – Chamou Delfi aproximando-se. – Não acho que deveríamos ter qualquer negócio com esta mulher.
- Vocês, filhas de Slosa são muito desconfiadas! – Clamou a bruxa, levantando-se da cadeira. Para além de ser baixa tinha as costas encurvadas e caminho até perto da lareira apoiando-se num bordão. – A única coisa que eu quero é fazer umas perguntas e dizer umas verdades. Aos três.
- Então faça! – Exclamou Delfi com o coração ao rubro dentro do peito.
- Pois bem. Meu rapaz diz-me, o que fazes tu aqui?
- Trabalho. – Retrucou prontamente Midsat.
- Trabalho? E é o trabalho que te move? Esta juventude já não é o que era, já não há sentido de dever, de destino. Agora é o dinheiro que vos move. Mas não… – A velha fez uma pequena pausa enquanto atiçava as brasas da lareira. – Não é trabalho. Se fosse somente trabalho não estavam aqui os três.
- O que quer dizer com isso? – Indagou Delfi tentando manter a postura e não ceder ao medo.

A velha olhou de esguelha para Delfi e depois deslocou-se para mais perto deles.

- Não vou mentir. Os caminhos do destino não são escondidos a mim. Sentem-se e talvez possa deitar alguma luz no trilho que vos trouxe aqui.

Os três sentaram-se com alguma hesitação, pois a conversa da mulher estava a perturba-los. Ela parecia muito confiante de si, sempre com um sorriso na cara e até Midsat se perguntava pelo porquê de tanta cerimónia para uma simples compra de ervas.

- Filha, prepara um chá para os nossos convidados. – Ordenou a velha para a rapariga que se tinha mantido à porta. Sem mais demoras a idosa sentou-se na cadeira em frente às outras três e continuou a falar. – Os conflitos determinam a vida. A luta para que a nascente quebre a rocha, para que o rebento brote da terra ou a luta entre caçador e a presa. Todos estes são exemplos do nosso mundo em conflito consigo próprio para criar e suster vida. E nós humanos, até o nosso primeiro sopro de vida é um combate, quando crescemos somos talhados pelos nossos conflitos e nossas lutas pessoais. E é isso que estamos aqui para averiguar.

O chá veio para a mesa num bule a fumegar. Rapidamente, o odor adocicado de frutos silvestres encheu a pequena casa conforme a rapariga o despejou para cinco chávenas. Em seguida a rapariga pegou na sua chávena e deslocou-se para um banco em frente à lareira. Os três estranharam a atitude da menina, pois o dia por sim não estava frio, coisa a que a idosa não fez caso e após beber um trago do seu chá continuou o discurso.

- Dos três podiam estar dois, podia estar um, ou até podiam ser outros desconhecidos, mas não. Os três foram encaminhados para este local pelos ventos de Anara, cada um com o seu destino marcado para o rio de almas de Deraq.

Os seus dedos compridos apontaram lentamente para Rasi, que imediatamente ganhou um tom rubro e ficou com o seu corpo tenso.

- O que o teu coração deseja irá receber. Irás viajar os ventos de mudança quando os do povo antigo acordar. Saborearás néctares divinos dessa sede que te corre pelas veias e de norte a sul encontrarás as tuas nascentes, Rasilita Fresia, filha de Slosa.

Ao acabar a profecia a anciã respirou fundo e afundou-se na cadeira como se exausta. Rasi estava pálida e absolutamente estática com os olhos esbugalhados e com a mão em frente da boca não sabendo se o seu corpo tinha força, ou vontade, de proferir uma única palavra.
Não ignorante ao estado de Rasi, a vidente, tremendo, levou as suas mãos à chávena e sorveu mais um trago do chá, colocando depois a sua mão em cima da de Rasi que se mantinha em cima da mesa.

- Bebe o chá criança. Irás sentir-te melhor. – Assegurou a anciã mudando a sua atenção para Delfi. – E que historia contas tu? Certamente não pelo caminho que mostras ir, não é? Delfi Fresia, filha de Slosa, o quanto tu escondes de todos nós. Essa força, esse fogo. Irás despertar gigantes e serás firme como as muralhas desta cidade contra eles. A tua vida passará por chama e aço até a tua pele ficar como o teu espírito.

Quando a bruxa acabou de falar a Delfi estava estática. Também como a sua irmã, Delfi não conseguia proferir uma única palavra, mas esta mantinha a aparência calma e controlada, apenas os olhos vidrados demonstravam a miríade de sentimentos que urravam dentro de si.
A anciã completou o mesmo ritual de beber o chá antes de continuar a sua profecia. Ela olhou para Midsat e com um grande sorriso nos lábios proferiu calmamente.

- Midsat Delron… - A velha fez um grande silêncio e depois continuou. - … O teu destino está um pouco próximo demais, não é? Tão próximo que se estenderes a mão quase que lhe podes tocar. E o que o teu coração te diz? O que vê ele como bem ou mal, certo ou errado? Eu vejo muita angústia, dor e malícia no teu futuro, mas também uma força capaz de lutar contra essa maré de escuridão. Serás envolto em trevas e das trevas erguer-te-á, luz ou não.

Midsat não disse uma única palavra e manteve-se estático na cadeira, apenas deixando o seu corpo pender contra as costas da cadeira.
Um breve silêncio instalou-se enquanto a anciã acabava de beber da sua malga até ao último trago.

- Agora vão. Os meus velhos ossos já não podem com estas andanças. A minha filha dar-vos-á a erva.

Sem qualquer um, dentro da pequena casa, proferir uma única palavra a mulher levantou-se com um grande pesar e deslocou-se para a frente da lareira. Em torno, a sua filha levantou-se e com as suas magras mãos retirou de um frasco um punhado de ervas e enrolou-as num saco. Em seguida, a rapariga acompanhou os três à saída e despediu-se deles com um gesto. Os três permaneceram calados, cada um envolto nos seus pensamentos e com temor de questionar os outros sobre os deles.

Passou apenas um dia desde o encontro de Midsat com a bruxa, mas para a sua mente, que não tinha largado as palavras da velha, parecia uma eternidade. E agora que se aproximava dos portões da propriedade dos Revelette as palavras pulsavam mais fortes na sua mente.

Madalene – Sabores

Passei a noite acordada e pela cara da Clarisse, também ela. Sentámo-nos as duas na mesa da cozinha com uma taça de cereais à frente de cada uma e um pacote de leite no centro para ser dividido. Nenhuma de nós disse uma palavra e começamos a comer muito lentamente. Foi um processo incrivelmente demorado e cada movimento pareceu demorar horas a ser concluído. Pegar na colher, leva-la à taça de cereais e o doloroso, ruidoso, insuportável e infindável mastigar dos cereais. O ruído prolongou-se até eu não poder mais. Deixei cair a colher, puxei os cabelos para trás e com a cabeça encostada à mão fiquei a olhar para a Clarisse à espera que ela me dissesse algo. O que obviamente não aconteceu e fiquei especada a olhar para ela sem nenhum outro ruído para alem do mastigar.

Madalene: Vais dizer-me algo?

Ela continuou a mastigar com um olhar perdido no nada.

Madalene: Fala comigo Clarisse! Depois do que se passou ontem não podemos estar assim.
Clarisse: E o que se passou ontem Madalene?
Talvez não tenha sido boa ideia. O grito percorreu-me a mente como uma tempestade.

Clarisse: É que a ultima coisa que me lembro, é de ser assaltada e depois aquele homem no ar a sangrar de… Era tanto sangue…

Ela está a exagerar, não era assim tanto.

Clarisse: Eu não sei o que aconteceu, mas sei que tenho medo.

De mim.

Clarisse: De ti. Desculpa Mad mas foste tu que fizeste aquilo.
Madalene: Pois fiz! E sabe-se lá o que teria acontecido se não o tivesse feito.
Clarisse: E tu por acaso sabes o que fizeste? Eu não acredito que saibas!

Agora a Clarisse tocou em algo difícil de se responder. Não sei se pelo olhar dela, a tentar aguentar as lágrimas, ou se pelo que ela disse ter sido a mais pura das verdades e também a razão porque não adormeci esta noite.
O que se passou comigo? Eu não sei explicar mas o que aconteceu ao assaltante, sei que foi provocado por mim. De alguma maneira eu fiz aquilo acontecer, sem tocar nele sufoquei-o, esmaguei-o e quem sabe até o posso ter morto, só simplesmente porque quis.

Clarisse: Eu entendo o teu silêncio Mad. Mas eu vou passar uns dias com o meu pai. Desculpa mas…
Madalene: Tens medo, já entendi.

Não trocámos mais palavras entre esse momento e a altura em que ela saiu da casa.


Independentemente do que aconteceu, eu dava graças por hoje ser sábado. Pelo que parece estou ressacada e estranhamente, algo em mim sabia que não era da bebida.
Depois de limpar a casa decidi que tinha de sair, estar fechada em casa sem a presença da Clarisse era mais arrepiante do que eu esperava, ainda por cima com os fantasmas desta noite ainda a assombrarem-me.
Sai de casa e senti um calafrio assim que os raios de sol me tocaram no corpo. Olhei para o céu apenas para ser presenteada com uma sensação de desconforto ao lembrar-me da chuva colorida de estrelas no ar antes daquela situação. De alguma forma era significante e parecia muito pouco provável que as duas fossem apenas coincidência. De certeza que estavam conectadas.
Mas é melhor tirar a minha mente disto e sair da frente da porta do prédio.
O dia estava ameno, mas conforme continuei a andar o calor começou a apossar-se do meu corpo. Foi uma boa desculpa para comer um gelado, visto que já não comia um à uma eternidade. Chocolate e amêndoa, aposto que isto é o que se come nos dias de calor lá no além. Mas assim que acabei de comer o gelado fui invadida por um frio terrível, algo mesmo extremo que até me fez tremer. A sensação estranha de frio foi passando e tudo voltou ao normal.

Sem a Clarisse passar o tempo era um pouco mais aborrecido. Acabei por deixar o tempo passar por mim com a televisão ligada e a soprar constantemente para a franja esvoaçar de um sítio para outro.
Comi os restos de o macarrão que foi feito ontem e agora ainda mais senti a falta da Clarisse, que para mal dos meus pecados, eu não consigo cozinhar para salvar a vida e até para aquecer estes restos dei um ar da minha graça ao queimar um pouco. Engoli com custo o alimento, ora frio, ora quente, ora totalmente carbonizado, enquanto os meus olhos se focavam no ecrã da televisão que repetia a mesma história de notícias macabras e pecados do homem.
A noite foi decorrendo lentamente. As notícias transformaram-se em anúncios que depois transformaram-se em novelas. E eu continuava a olhar para o ecrã, por cima do prato sujo do jantar, estática e totalmente aborrecida.
Decidi que tinha de sair. Não pensei que sentisse tanta falta da Clarisse mas depois destes dois anos a vivermos juntas, eu nem conseguia pensar direito sendo assombrada pelo facto de que ela tinha fugido.
O ar nocturno estava fresco e uma sensação de mau estar percorreu-me o corpo. Senti o meu sangue a arrefecer, veia a veia, conforme a primeira lufada de ar entrou-me no corpo. Percorri as ruas de Radiance deambulando sozinha por vários cantos que conhecia, mas eventualmente cruzei o caminho da noite anterior. Parei no beco onde a Clarisse foi assaltada. Engoli a seco assim que me aproximei e vi uma mancha distinta no chão. A cor avermelhada não deixava o caso aberto a discussões, aquilo era o resto de sangue que tinha ficado colado ao pavimento depois do que sucedeu ontem e havia um rasto distinto que seguia para dentro do beco, o que significava que muito provavelmente o homem tinha sobrevivido. Arrepiei-me, tanto de frio como de algo mais, senti-me observada e com um mau estar horripilante.
Fugi daquele sitio com o coração a saltar-me no peito e com a terrível sensação de que algo estava bastante errado comigo. Continuei sem rumo agarrada ao peito e tremendo e assim que pude meti-me dentro de um estabelecimento, não me importava se era discoteca, bar ou até um café de rua, eu só precisava de uma bebida e um sitio onde me sentar.
O ambiente era bastante escuro e vazio se uma pessoa ignorasse a confusão de luzes que piscavam, a neblina falsa, o ruído ensurdecedor da musica e a multidão que se esfregava calorosa e vivamente na pista de dança.

Barman: E o que vai tomar esta noite?

A agonia dentro de mim estava tão intensa que nem me dei ao trabalho de levantar a cabeça para responder

Madalene: Qualquer coisa com uma boa percentagem de álcool dentro.
Barman: Ontem não chegou?

O meu coração bateu mais lento. Levantei a cabeça e engoli a seco quando vi aquela cara sorridente. Estava na mesma discoteca da noite anterior, onde a Clarisse tinha magoado o pé. Senti-me que nem uma criminosa a voltar ao lugar do crime, pois inadvertidamente tinha corrido em inverso o caminho que percorremos ontem à noite.

Barman: Está tudo bem?
Madalene: Está.

Respondi num tom seco e de olhos esbugalhados tentando controlar o choque.

Barman: Não parece. Alguma coisa que queiras falar?
Madalene: Não.
Barman: Estavas mais simpática ontem.

Ele despejou-me uma bebida mas continuei um pouco perturbada. Cuidadosamente peguei na bebida e meti o copo aos lábios. Fechei os olhos e saboreei o doce aroma da bebida. Senti um ardor a percorrer-me o corpo e então abri os olhos. O rapaz estava a olhar para mim de sobrolho erguido e expressão inquisitiva mas eu mantive-me em silencio. O ardor ainda estava a percorrer-me o corpo e tinha medo de começar a tossir se abrisse a boca. Ele ainda me questionou se estava tudo bem, possivelmente devido à minha face um pouco agoniada, mas ainda demorei um pouco a responder. Finalmente limpei a garganta e numa insanidade momentânea evitei responder-lhe mas perguntei:

Madalene: Quando é que sais daqui?
Barman: O quê?
Madalene: Ouviste bem. Responde antes que mude de ideias.

…

Não sei realmente o que tenho na cabeça. Podia afirmar que não é meu habito levar homens que não conheço para minha casa, mas isso seria errado. Normalmente é um motel, ou nas casas deles, mas desta vez estava tão disposta a ver-me livre desta sensação que tudo valia.
Já tínhamos passado a porta da casa e estávamos aos beijos como se a nossa vida estivesse dentro da boca do outro. As mãos percorriam os corpos um do outro afagando todos os contornos dos corpos. Ao passar a mão pelo peito dele consegui sentir os seus músculos por baixo da t-shirt e a vontade de lhe sentir o corpo e a sua pele avassalou-me. Rapidamente tirei-lhe a t-shirt, lancei-o contra a cama e em seguida meti-me em cima dele. As mãos dele subiram da cintura até ao peito e nesse movimento a minha camisola voou para o chão do quarto. Rebolamos aos beijos na cama até ele estar em cima de mim e ai, com um sorriso agarrou-me nas calças e beijou-me o pescoço. Conforme os seus beijos começaram a descer pelo meu corpo, assim as minhas calças começaram a deslizar das minhas ancas. A sensação era tão boa que dei por mim a gemer suavemente, mas quando ele tinha puxado as minhas calças até aos meus pés eu cometi o grave erro de abrir os olhos. A flutuar no ar, em volta da cama, estavam as roupas que já tinham saltado dos nossos corpos, assim como o candeeiro da minha cómoda. Em pânico soltei um grito e tudo caiu no chão. O estrondo do candeeiro a partir-se em cacos misturado com o meu grito fez o rapaz dar um enorme salto para fora da cama.

Barman: O que se passou?
Madalene: eu… eu preciso de estar sozinha.
Barman: desculpa?
Madalene: Isto não dá, vais ter de sair.

Assustado o rapaz vestiu-se e saiu. Ele estava demasiado entretido, acredito que não viu nada. No entanto eu não posso negar o que se passou. Primeiro o incidente com a Clarisse, agora isto, há algo de errado comigo. Na cómoda ao lado da minha cama havia uma moldura com uma foto da minha mãe. Estendi-lhe a mão, senti um mal-estar a percorrer o meu corpo e imediatamente a moldura deslocou-se sozinha. Gelei por dentro mas mantive a posição e em poucos segundos a moldura estava na minha mão, sem qualquer outro movimento meu.

Madalene – Luzes brilhantes e um céu nocturno.

Mais uma noite tinha chegado a Radiance. Eu e a Clarisse preparávamo-nos para fugir à sombra do horário laboral e sermos envoltas pelas doces luzes da noite. Talvez esteja a ser demasiado filosófica, mas quando começo a limar as unhas a minha mente devaneia.

No outro sofá à cabeceira deste estava a Clarisse, numa posição que desafiava o conforto físico, a pintar as unhas dos pés, completamente absorvida pela sua tarefa.

Na televisão passava o noticiário das oito horas, passando a mesma historia mórbida do violador de Radiance. É claro que trata-se de um caso mediático e um perigo para a as mulheres da cidade, mas já è a sexta vez este dia que eu vejo a mesma noticia.


Madalene: Este noticiário já cansa.


A Clarisse manteve-se calada, envolta na sua pintura.


Madalene: Isto só acontece porque a policia faz pouco para o capturar. Cambada de preguiçosos. Oh, desculpa Clarisse.

Clarisse: Não faz mal amiga, eu bem sei que o meu pai é preguiçoso. Mas se te chateia, muda de canal, não temos de estar a ouvir dessas coisas.

Madalene: Bem, as minhas unhas já estão. Passa-me o verniz.

Clarisse: Ainda não acabei, dá-me só mais uns minutos.

Madalene: Se tu tivesses tanta aplicação na faculdade como a arranjar-te tiravas vinte a tudo.

Clarisse: Mas assim perdia tudo o resto que estes anos têm a oferecer.


Não podia discordar com isso. Estávamos no pico da juventude e dispostas a aproveitar todos os momentos que a vida nos lançava.


Clarisse: Achas que estamos em perigo?

Madalene: uh?

Clarisse: O meu pai diz para termos cuidado quando vamos à rua. Ele diz que esse homem é um louco e as raparigas que encontraram mortas... não as mostraram nem às famílias devido ao estado em que estavam.

Madalene: Não achas que o teu pai te anda a dizer demasiadas coisas sobre um caso policial? Se calhar só te está a tentar assustar.

Clarisse: Isso seria mesmo típico dele não seria?

A Clarisse não resistiu a rir-se e eu acompanhei-a na gargalhada. Apesar de ser um tema sério, a verdade é que o pai dela costumava exagerar as coisas para causar medo a este pequeno demónio que ele ainda pensava ser inocente.

Clarisse: Toma lá o verniz.


O noticiário acabara de apresentar outra vitima do violador. As coisas não estavam bonitas para o departamento de policia. Eventualmente enquanto eu pincelava as minhas unhas a Clarisse acabou por dar a sua opinião.


Clarisse: Isto ainda vai piorar antes de ficar melhor.

Madalene: Achas que isso vai acontecer?

Clarisse: Acredito que sim. Soa demasiado pessimista?

Madalene: Yah, nem pareces tu.


Algumas horas depois saímos de casa para nos lançarmos aos bares e discotecas. A noite encontra-se agradavelmente quente, a aragem com aromas estranhos e alguns mais doces provenientes do parque Ectos. Foi uma ideia de Clarisse procurar bares neste lado da cidade e não demorou até encontrar uma nova discoteca para onde me arrastou por um braço.


A musica estava alta e as luzes iluminavam os corpos suados na pista de dança. A fricção entre os corpos gerava uma quantidade infindável de calor humano, a dança frenética não parecia cessar sob os ritmos e ondas musicais e no meio de tudo isto eu estou no balcão parada, sem vontade nenhuma de me juntar ao frenesim musical. Suspirei desencantada olhando para a bebida que tinha na mão. Depois de me preparar tanto, tinha acabado amuada num canto. Suspirei mais uma vez ao ver a Clarisse no meio da multidão de corpos com o seu longo cabelo loiro a balançar ao ritmo da sua figura. Pelo menos ela está a divertir-se. Foi uma boa razão para sorrir.

Um pouco mais tarde, depois de já ter trocado umas palavras com a Clarisse e depois de ela ter voltado à pista de dança, o barman decidiu questionar-me sobre a minha inércia.


Barman: Desde que entraste aqui, que não saíste do balcão. Há algum problema?

Madalene: como sabes que estive este tempo todo aqui?

Barman: Já é o terceiro Sexy Devil que pedes e ainda não te vi a mexer para longe daqui.

Madalene: Com que então tens andado de olho em mim?

Barman: Só tenho é razões para não os meus olhos de ti.


Ri-me timidamente. Não acredito que isto esta a acontecer-me. Não me sinto com vontade nenhuma de entrar nestes tipo de jogos mas também não quero ficar com alternativa.


Madalene: É verdade, mas os teus olhos não são as tuas mãos e essas podiam estar ocupadas em fazer-me outra bebida.

Barman: Não só.

Madalene: Tira esses pensamentos e faz-me outro Sexy Devil.

Barman: tens a certeza? Tu sabes a quantidade de vodka que isto bem?

Madalene: Estou bem ciente. Agora fecha esses lábios e trabalha.


Isto até pode correr bem. Quem sabe até me calhe um pouco diversão mais logo, assumindo que a Clarisse tenha um forte interesse de passar a noite na casa do pai, ou passa-la acordada.

E eu própria acabei de mandar as minhas esperanças abaixo. Bom trabalho Madalane.


Barman: Mas então, porque não sais daqui? Por a tua cara assumo que seja por algo mais que o rapaz giro que te está a fazer as bebidas.

Madalene: Não sei. Desde que sai à rua que fiquei murcha.

Barman: O que estás para ai a dizer? Está uma noite boa e já olhaste para o céu?

Madalene: Sim, o céu está bonito.


Não consegui dizer mais nada, foi como se as palavras prendessem na minha garganta e a língua enrolasse. Não sabia o que mais dizer e não conseguia o fazer mais. Foi como se a minha mente se perdesse nas estrelas. Tentei tirar o nó da minha garganta com a bebida mas não funcionou. O que é que se passa comigo.

Felizmente tive a maravilhosa interrupção da Clarisse que me tirou tudo o que me poderia paralisar da cabeça.


Clarisse: Amiga, desculpa mas temos de nos ir embora. Torci o pé.

Madalene: Então apoia-te aqui. E vamos já embora.


Pus o dinheiro em cima do balcão e depois, com a Clarisse agarrada ao meu ombro fomos embora dali. Apenas com uma pequena interrupção.


Barman: Hei! Não nem sei o teu nome.

Madalene: Isso é porque eu não te o dei.


Fomos outra vez para a noite, mas agora era de volta a casa. E carregar uma miúda com mais uns 5cm que eu, ainda por cima em saltos altos e com a quantidade de vodka que eu tenho em cima não é algo fácil.

Caminhámos por um bom bocado até a Clarisse pedir para parar. Para ficar mais confortável e não forçar o pé, levei-a para sentar-se num muro.


Clarisse: Desculpa, mas o meu pé já não aguenta mais.

Madalene: Pára de pedir desculpas. Até parece que me aleijaste.

Clarisse: Ahah. E que tal ires ai a um café buscar uma água.

Madalene: É para já minha senhora.


Com uma vénia trocista. Corri para o café mais próximo e pedi uma água depois de pagar voltei imediata para o local onde tinha deixado a Clarisse mas eu não a via. Ela não podia ter ido muito longe. Procurei em redor mas nada. O meu coração já começava a querer partir as minhas costelas e saltar da caixa torácica até que ouvi um grito abafado vindo de uma viela mais obscura.

Entrei no beco e deparei-me com um homem segurando uma faca, cobrindo a boca da Clarisse com uma mão e com a outra remexia na sua mala. Não pensei e aproximei-me deles berrando.


Madalene: Hei! Larga-a!


O criminoso pôs-se rapidamente atrás da Clarisse usando-a como um escudo humano mas quando viu pela escuridão deve ter-me achado pouca resistência pois começou a rir-se.


Criminoso: Por momentos pensei que estava em problemas. Não passas de uma miúda. E que tal também passares a tua carteira e telemóvel para não termos chatices aqui com a tua amiga.


Cerrei os pulsos com raiva e cerrei os dentes. A faca estava demasiado próxima da garganta da Clarisse e não havia nada que eu pudesse fazer. Vi as lágrimas a cair pela cara da Clarisse e o meu coração ainda bateu mais. Dei um passo mas o agressor tornou o aperto mais intenso.

Mas neste instante, algo aconteceu que ninguém esperava. Luzes brilhantes cruzaram o céu. Uma chuva de estrelas de cores que desafiava a imaginação iluminaram o céu como uma língua de fogo colorida e quando cessou, a minha mente foi assolada por uma imensidade de pensamentos e foi penetrada por uma dor incrível que me forçou a ficar de joelhos. Mas de um momento para o outro a dor cessou e quando me levantei fui movida por uma mão invisível.

Ergui o meu braço em direcção ao malfeitor e semicerrei os meus dedos como se apertasse algo e nesse exacto instante todo o seu corpo ficou tenso, deixando cair a faca. Comecei a avançar em direcção a ele cerrando os meus dedos cada vez mais e vendo a sua agonia a crescer perante os meus olhos. Ergui o meu braço e ele elevou-se no ar. Vi sangue a escorrer-lhe pelo nariz e não quis parar, senti-me viva, senti que podia fazer tudo e neste momento eu iria esmagar este insecto. Apertei-o ainda mais e pareceu-me sentir o seu coração a abrandar na minha mão. Cada vez mais a batida parecia esmorecer até um suspiro.


Clarisse: Madalene, pára!


O grito da Clarisse cortou o meu transe como uma luz pela escuridão. Cai de joelhos novamente, ofegante e com a visão turva, mas não conseguindo dar luz à situação, deambulei até voltar a ter a Clarisse apoiada em mim.

Depois voltamos a andar. Abandonei aquela viela e não olhei para trás, percorremos o resto do caminho até ao apartamento em absoluto silencio e não voltamos a olhar para trás.



Não olhámos para trás…

Colector de Corações

Parte 8

A chuva caía como um dilúvio inundando as ruas de Lazindur. A água escorria pelas ruas em direcção às sarjetas e aos esgotos com um fervor demoníaco. Não havia viva alma das ruas para alem da figura encapuçada de Leiva que cruzava as ruas com uma velocidade tremenda como um fantasma, uma sombra que vagueava pelas artérias da cidade fluindo com os líquidos que por elas passavam.
Por fim ela chegou ao seu destino. Era uma casa que, nos pequenos detalhes, destacava-se do resto. Tinha dois andares, os parapeitos das janelas tinham elaborados detalhes cravados na pedra e o jardim tinha flores exóticas em abundância. Não era uma simples casa, era uma vila de algum nobre.
Entrar na casa não foi difícil, pois Leiva tinha subornado um dos criados para deixa-la entrar pela porta das traseiras, mas não dar nas vistas tornou-se um pouco complicado. Apesar do temporal enfeitar os cantos da casa com sombras, também tinha mantido os serventes e guardas dentro de portas, portanto todo o cuidado era pouco. Com isso em mente, Leiva colou-se às sombras e abraçou as paredes no mais profundo silencio tentando sondar presenças nos seus arredores. Alguns aposentos requeriam mais cuidado devido a patrulha de guardas ou um servente encarregue de uma tarefa, outros ainda tiveram de ser completamente ignorados devido a sentinelas permanentes e Leiva necessitou de encontrar outra rota até ao seu objectivo.
Encontrando-se no segundo andar ela conseguiu pôr os olhos na sua meta. Os aposentos do nobre encontravam-se no fundo de um corredor com dois guardas de sentinela. Algo que Leiva não conseguiria ultrapassar sem alertar a casa da sua presença. Perante este obstáculo a Ladra decidiu fazer algo mais arriscado. Com passos silenciosos ela aproveitou a ligeira distracção dos guardas para fazer uma pequena passagem pelo corredor e entrar num dos compartimentos a ele adjacentes. Ao fechar a porta Leiva deparou-se com uma figura prostrada na cama e o seu coração acelerou até se aperceber que dormia profundamente. Aliviada, Leiva agiu em silencio e rapidamente, pois nesta altura alguém já suspeitaria do misterioso trilho de água deixado por ela ao avançar pela casa, dirigindo-se à janela. O temporal já tinha abrandado e agora apenas caia uma chuva miúda, como se a natureza tivesse decidido facilitar a próxima proeza. Com cuidado Leiva abriu a janela e saltou para o parapeito, fechando-a do outro lado. Dotada de uma destreza surpreendente usou as saliências e outros parapeitos para deslocar-se de quarto em quarto pela parede exterior da casa, por fim conseguindo encontrar-se em frente aos aposentos no nobre. Abrir a janela do exterior não se apresentou obstáculo e dentro de segundos Leiva já se encontrava dentro do quarto com o seu objectivo à mão de semear.
Havia uma pequena caixa na mesa de cabeceira fechada a cadeado, algo que não passava de nada mais que um véu nas mãos de Leiva, mas antes que as suas mãos pudessem forçar a fechadura, ouviu vozes a levantarem-se do outro lado da porta e correu a se esconder por detrás dos cortinados. De lá, ela conseguiu ouvir o ranger da porta a abrir-se e os passos pesados de dois homens a entrarem no quarto. Pelas vozes pareciam ser de idades muito diferentes e pela conversa mostravam ser pai e filho.

- Eu discordo plenamente destas situação meu pai. – Criticou o mais novo.
- Já ouvi as tuas objecções Clariese e a minha resposta continua a mesma. Estamos aqui para ajudar uma velha amiga e isso é mais importante que as tuas andanças na corte.
- Mas eu encontro-me a cortejar a menina Solena e o pai sabe quantos pretendentes ela tem. Se desapareço durante um dia cairão todos em cima dela que nem aves de rapina.
- Basta Clariese! – Gritou o pai enfurecido. – Nós vamos manter-nos aqui até o nosso trabalho estar completo. Eu não estou aqui para te satisfazer os caprichos, portanto vais parar com este assunto e acatar as minhas ordens! Estamos entendidos?
- Sim senhor. – Murmurou o filho num tom resignado.
- Agora vai. Prepara os criados para a viagem, pois partimos mal este tempo passe. E pelos vistos não vai demorar muito.

Antes do seu filho abandonar o quarto o homem deslocou-se à janela na esperança de encontrar o céu azul rasgando as nuvens negras mas ao afastar os cortinados deparou-se com um olhar gélido e um sorriso sinistro a enfeitar a pele branca da Leiva. Antes que alguém tivesse tempo de livrar-se do efeito do choque pensar em reagir, Leiva usou uma pequena moca de madeira que trazia sempre consigo para atacar o mais velho, que com uma única pancada na cabeça caiu no chão sem sentidos. De seguida o jovem desembainhou a sua espada e chamou pelos guardas. Com um grito de fúria, lançou-se a Leiva com um ataque desajeitado, que Leiva conseguiu desviar-se sem esforço. Aproveitando o desequilibro do rapaz, Leiva agarrou-lhe o braço e torceu-o atrás das costas. Quando os guardas entraram Leiva aplicou um pontapé forte nas costas do jovem, lançando-o contra os guardas fazendo-os perder o equilíbrio tentando aparar o jovem. Agindo velozmente, lançou-se por cima da cama e com a caixa na mão voltou para perto da janela. Os guardas já se tinham reposto e avançavam contra ela esbaforidos com espadas em riste enquanto que, esfregando as costas, o rapaz gritava ordens. O sorriso na cara de Leiva refez-se quando os dois guardas estavam mesmo em cima dela e enquanto delicadamente e sem levantar suspeitas retirava, uma esfera de um pequeno saco que tinha à cintura. Quando estavam perto o suficiente Leiva lançou a esfera ao chão criando uma grande explosão de fumo e de luz que ofuscou os guardas. Aproveitando-se da situação que tinha criado, Leiva lançou-se destemidamente da janela em queda livre acabando por aterrar no chão como se fosse uma gata. Apesar dos seus músculos e ossos pulsarem de dor no momento do impacto ela não se demoveu e começou a fuga por as ruas ainda ensopadas da chuva, mas que já continuam algumas almas que desafiavam o temporal que ainda cobria os céus ameaçando começar uma outra vez. Fugiu em direcção às vielas e becos que tão bem conhecia.
Deixou para trás uma vila em barafunda onde ordens eram lançadas para o ar e os seus guardas tentavam impor ordem e algum sentido no que se tinha passado. Não demorou muito até a guarda da cidade intervir a fornecer o seu auxilio.
O líder do pelotão que oferecia a sua assistência era alto de cabelo acobreado e expressão pesada. O nobre rapidamente passou a dar ordens e seguiu a identificar rapidamente a ladra por um dos cartazes que se encontravam fixos nas casas, o que
instigou ainda mais a motivação dos homens, pois viam-se envolvidos na captura da
princesa ladra.
Em poucos minutos, patrulhas faziam buscas intensivas aos arredores da mansão em busca da ladra, enquanto que outros pelotões penetravam na cidade por ruas menos usadas tentando descobrir os retiros ocultos da princesa.
No entanto, a ladra escondia-se em plena vista. Numa tenda no mercado sob a protecção de um dos seus cúmplices, a ladra forçava a fechadura da caixa.

- E o que é isso? – Questionou o homem que observava Leiva. Alto e de pele escura, com o cabelo completamente rapado e uma face enigmática.
- O meu trabalho. – Respondeu Leiva sem tirar os olhos da fechadura. – Agora volta para a tua loja, deixa os adultos trabalhar.

Mas homem não se demoveu e continuou a observar Leiva no seu “trabalho”.
Finalmente a fechadura cedeu à intrusão da ladra revelando seu conteúdo. Um rico tecido de seda enrolava o prémio pelo qual Leiva ansiava. Era uma estátua de Arana feita em mármore, igual a muitas outras espalhadas pelas casas dos habitantes na cidade. A estátua era tão banal que fez Leiva torcer o nariz, coçando a cabeça, pensativa.

- Mas o que vem a ser isto? – Questionou-se ela, ignorante que ainda era observada.
- É uma estátua de Arana. Eu pensei que para uma grande ladra tu saberias o que isso é. – Troçou o homem. – É bom ver onde tu perdes o teu trabalho, eu vendo pelo menos uma estátua dessas por dia. Podias simplesmente ter-me pedido que eu dava-te uma.

Com um movimento brusco, Leiva lançou a estátua ao seu sócio de negócios mais obscuros e ele agarrou-a com facilidade com uma mão, mas ao segura-la houve algo que lhe chamou à atenção. Sob o olhar inquisitivo da ladra, o homem avaliou o peso da estátua e perscrutou os seus detalhes com os olhos e dedos à procura de algo fora do normal. Sem aviso deixou cair a estátua. A Leiva deu um salto, soltando um pequeno grito, ao aperceber-se do intuito do seu colega, mas nada conseguiu fazer em relação a isso. A estátua despedaçou-se no chão perante o olhar estupefacto da ladra. Ela deslocou-se rapidamente para perto do homem com violência no olhar, mas acabou por parar ao vê-lo agachar-se e a remexer com os seus dedos grossos pelos cacos. No meio dos cacos de mármore algo saltou à vista. Uma jóia branca, perfeitamente redonda, que parecia ter formas vaporosas presas no seu interior. Quando a ladra tentou pegar na jóia, o olhar reprovador do eu amigo fê-la quedar-se. Depois, com um pedaço de cabedal na mão ele agarrou na pedra e ergueu-a até à linha do olhar. Parecia uma pequena estrela de almas confinadas a um núcleo de energia e envolvidos numa superfície transparente.

- Isto é uma jóia de demónios. – Cuspiu o homem olhando para Leiva que observava a jóia com um grande sorriso nos lábios. – Esta jóia suga a essência de quem lhe tocar. Esta é pura e as sombras que rodopiam em torno dela mostram que está faminta.
- Não me interessa se amaldiçoará a minha família toda, aposto a minha sorte com que era isto que eu realmente procurava.
- Uma aposta pesada Leiva, eu não proferiria essas palavras se fosse a ti. A tua sorte já te salvou tanta vez.
- Mas meu amigo, eu tenho a certeza que é isto. – Assegurou a ladra com o seu olhar obcecado pela jóia. – Se isto suga-me a essência se eu tocar, guarda-a de uma maneira que eu a possa transportar. Esta noite vou entrega-la.

Quando o amigo de Leiva, preparava a jóia para ser transportada a sua ajudante aproximou-se deles, nervosa e ofegante.

- Garto, Leiva, os guardas aproximam-se!
- Despacha-te então e eu saio daqui o mais rápido possível. Não quero ver o meu contacto profissional implicado nos meus problemas.

Com a ajuda da rapariga, envolveram a jóia numa camada de seda e noutra de cabedal, voltaram a colocar na caixa de onde tinha saído e o mercador fechou-a com um dos seus cadeados. Depois de entregar a chave a Leiva, ela lançou-se outra vez para as ruas de Lazindur, percorrendo alguns dos seus caminhos na direcção oposta, refazendo os seus passos na esperança de confundir as buscas. Depois disso precisaria de um sitio onde se esconder, mudar de roupa. Sítios desses para ela não faltavam na cidade.